Arquivo mensal: novembro 2010

Isso ai é rádio

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Os “advogados do povo” na televisão

Interação com o público-alvo é o recurso utilizado pelos apresentadores de programas policiais para conseguirem pontos importantes na briga pela audiência

Muito mais do que crimes. É disso que precisam os programas policiais da televisão brasileira. Para conseguir “sucesso” é necessário personificar a produção da comunicação em um “showman” próximo à realidade. Esse tipo de jornalismo, muitas vezes criticado pelo apelo sensacionalista, é construído através de um desenho psicológico de seu apresentador para que seja capaz de atingir os expectadores como alguém que sente os mesmos problemas cotidianos.

Para sobreviverem, os programas policiais mais populares precisam, obviamente, da matéria-prima crime. Sejam violentos ou não, o Brasil apresenta altas taxas. Não por acaso, o país aparece muito distante das primeiras posições em pesquisas dos locais mais pacíficos do mundo.

Isto posto, cria-se um cenário ideal para que os programas policiais consigam espaço midiático. No entanto, não é apenas isso. Os apresentadores são boa parte da explicação para o sucesso de ibope de alguns deles. Os ataques histéricos, os chiliques nervosos tornam-se padrões de personalidade de revolta contra as políticas de segurança pública.

No começo da última década, esse tipo de produção mais popular, por vezes até sensacionalista, além de outros programas também com estilos mais sociais alcançaram outro patamar. Os índices de audiência atingidos por Ratinho, Datena, Marcelo Rezende, entre outros, fizeram com que as grades televisivas permitissem mais espaço para a programação dessa linhagem.

As estrelas desse tipo de show midiático, muitas vezes quase atores humorísticos, fazem o papel estereotipado de defensores públicos. Isso porque mostram diariamente os mais diversos problemas que a sociedade enfrenta. Por conta disso, a infiltração desse tipo de programação é muito maior em áreas com situações mais precárias de segurança, saúde, educação, entre outros.

Para conseguir retorno de audiência, esse tipo de programa se utiliza dos conceitos de Interação Parassocial. Ou seja, é estabelecido um vínculo entre a figura midiática do apresentador e os expectadores. Eles conseguem isso se mantendo como “pessoas reais” que também são afetadas pelos problemas apresentados e pela revolta demonstrada.

Outro recurso importante utilizado por pelos programas policiais é a linguagem. Jargões como “me ajuda aqui”, “aqui tem café no bule” ou “o povo na TV” aproximam ainda mais as pessoas desses apresentadores. Funciona quase como se fosse a voz do expectador. No entanto, esse processo deve ser entendido como proposital por parte das empresas de comunicação.

Também há a possibilidade de interação direta – não apenas virtual pela televisão – com quem vê e acompanha o programa. Isto é fazer com que o público alvo se sinta parte integrante do processo. Unidades móveis, helicópteros tornam visíveis as pessoas que se sentem à margem da sociedade. Aceitar denúncias, entrevistas também entram no processo de “aproximação” desejada pelos meios.

Logo é possível dizer que para um programa jornalístico como são os policiais, não basta apenas a produção de notícias. É necessário um estudo psicológico que seja capaz de otimizar o alcance. E eles são feitos e utilizados por “atores” que passam uma mensagem indireta de proximidade e interação com quem assiste.