Ronaldo é gol

Não é todo dia que se vê um eclipse total da lua. O famoso Cometa Halley era visto a cada 76 anos. Também não há quem consiga explicar ou negar a existência dos extraterrestres. Os Tsnunamis, as chuvas, as queimadas, os furacões vão ser lembrados em todas as retrospectivas de final do ano. No entanto, “Fenômeno” eles não são. Ou pelo menos estão mais afastados do significado desta palavra a partir de agora. Essa ideia, de coisas fenomenais, mudou. Praticamente acabou nesta segunda-feira com o anuncio da aposentadoria do jogador Ronaldo.

Pelé foi o “Rei”. Maradona é o “Diós (D10S)” na Argentina. Leônidas da Silva, primeiro grande craque brasileiro, é lembrado como “Diamante Negro”. Romário foi o “Baixinho”. Garrincha tinha as pernas tortas e Zico era o “Galinho de Quintino”. Michael Jordan foi “Air” e Earvin Johnson dava passes tão geniais que foi apelidado de “Magic” na NBA. O apelido sobrou para Paula, companheira de Hortência, a “Rainha do Basquete”. Na Fórmula 1, Ayrton Senna era “do Brasil” e rivalizou por tanto tempo com o “Professor” Alain Prost.

Ronaldo Luís Nazário de Lima é certamente um integrante dessa classe de atleta especial que marca época. O “Fenômeno”, apelido que recebeu dos jornalistas espanhóis quando de sua passagem pelo Barcelona em 1996, é um jogador único e que não precisa de muitas definições. Basta uma palavra, uma ideia. E ele é o que exatamente aquilo que ele conseguiu construir ao longo de sua carreira: fenomenal!

No entanto, a partir do último dia 14 de fevereiro, Ronaldo entrou para outra classe, a de ex-atletas. Após 18 anos de uma jornada profissional vitoriosa, um dos maiores astros dos últimos 20 anos parou. Parou sob uma chuva de pedras que não eram meteoros de duelos planetários. Parou sob pedradas de vândalos que o culparam por conta de um vexame fenomenal.

A atuação do jogador no revés por 2 a 0 diante do Deportes Tolima, time colombiano que determinou a eliminação do Corinthians da Taça Libertadores da América, não lembrou em nada as arrancadas que marcaram sua carreira. Há muito tempo o Fenômeno não era mais tão rápido como um relâmpago que rasgava o céu. Muito menos tão devastador quanto um vendaval capaz de não deixar nada e nenhum defensor em pé. Ronaldo é gol como diz a música, mas desde 13 de novembro ele não balançava as redes.

A eliminação, as dores em virtude das lesões numerosas e a alegação de hipotireoidismo descoberto há quatro anos quando ainda jogava no Milan pesaram. E Ronaldo, pesado, decidiu que era o momento de antecipar a aposentadoria programada para o final de 2011. A precipitação abordada por todos os canais de televisão e por cerca de 300 profissionais na sala de imprensa do Corinthians com espaço para 150 não era a chuva tradicional em São Paulo. O jogador eleito três vezes melhor do mundo (1996, 1997 e 2002) chorou após ter “abandonar algo que fez com tanto amor por ter chegado ao máximo do sacrifício”.

O anuncio colocou um ponto final na carreira do camisa 9. A trajetória de Ronaldo começou no São Cristóvão do Rio de Janeiro. No entanto, foi no Cruzeiro de Belo Horizonte aos 16 que o jogador conseguiu destaque nacional. A estreia como profissional no time mineiro aconteceu no dia 25 de maio de 1993. A rápida evolução fez o jovem fazer parte do grupo da Seleção Brasileira que conquistou a Copa do Mundo de 1994 disputada nos EUA.

Mesmo sem entrar em campo no mundial norte-americano, Ronaldo começou a desenhar sua trajetória internacional. Por “apenas” US$ 6 milhões, o jogador trocou o Cruzeiro pelo PSV da Holanda. Os 67 gols em 71 jogos nas duas temporadas que fez pelo time holandês fizeram o Barcelona da Espanha abrir os cofres. O time catalão desembolsou US$ 20 milhões para contar com os trabalhos do atacante.

Aos 20 anos, Ronaldo fez na Espanha uma temporada incrível que lhe rendeu o apelido fenomenal. Foi jogando pelo Barcelona que o atacante conseguiu levantar o prêmio de melhor do mundo pela primeira vez. No entanto, o atleta ficou apenas uma temporada no time catalão e após 47 gols em 52 jogos foi para a Itália para jogar pela Internazionale de Milão.

O começo no time italiano foi bom e Ronaldo foi eleito como melhor do mundo pela segunda vez. Contudo, o jogador passou a ter que lidar com problemas. O primeiro deles foi a convulsão momentos antes da final da Copa do Mundo da França em 1998 quando o Brasil foi derrotado pela França por 3 a 0 na final. No ano seguinte o atleta lidou com sua primeira grave lesão. A volta antecipada resultou em uma chocante imagem: em uma arrancada no seu retorno, o tendão patelar do Fenômeno se rompeu completamente e a carreira quase foi abreviada.

Após 15 meses de recuperação, Ronaldo foi convocado por Luís Felipe Scolari para a disputa da Copa do Mundo da Coreia do Sul e do Japão. Os oito gols no torneio, incluindo dois na decisão contra a Alemanha, fizeram o jogador alcançar pela terceira vez o status de melhor do mundo e valeu uma transferência para o Real Madrid.

Novamente na Espanha, Ronaldo fez parte da era “Galáctica” do time madrilenho ao lado de outros astros como Zinedine Zidane e David Beckham. Sucesso de marketing, o jogador viu o número de títulos minguar, as criticas a respeito de seu peso surgirem.

Antes de voltar para a Itália, desta vez para o Milan, Ronaldo fez na vitória do Brasil diante de Gana em 2006 na Alemanha o seu décimo quinto gol em copas do mundo se isolando como o maior artilheiro do evento. O gol também foi o 71º e último em seus 12 anos servindo à Seleção Brasileira.

Dispensado pelo time italiano, Ronaldo voltou ao Brasil e acertou com o Corinthians. No time paulista, o jogador fez os seus últimos 35 gols na carreira. No primeiro semestre de 2009, o fenômeno comandou a campanha vitoriosa da Copa do Brasil e do Campeonato Paulista fazendo gol nas duas decisões.

As lesões e o peso elevado voltaram a assombrar o camisa 9. Fora de campo, o jogador ajudou o Corinthians a obter o quarto maior patrocínio do mundo na camisa. Dentro das quatro linhas os seguidos fracassos foram minando o impacto do Fenômeno. Fora de forma, ele não conseguiu repetir o desempenho de sua chegada no time paulista. Longe de ser uma unanimidade até entre os corintianos, o Fenômeno optou pela aposentadoria, mas revelou que vai seguir próximo ao futebol, especialmente de seu último clube.

Artilheiro, Ronaldo deixou para a história 475 gols nos 576 jogos que fez como profissional.  Além dos três troféus de melhor jogador do planeta e das duas Copas do Mundo, o jogador colecionou 18 títulos (seis deles com a Seleção Brasileira), antes de colocar um ponto final na trajetória fenomenal.

 

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Publicado em fevereiro 23, 2011, em Jorn. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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