Webjornalismo e o novo jornalista

Por João Henrique Olegario, Renato Pires e Raphael Sack

O jornalismo vive um período decisivo em sua história. As mudanças nas noções de tempo, espaço e velocidade trazidas pela internet além do avanço tecnológico e a possibilidade de múltiplas mídias foram capazes de criar uma crise no caminho da atividade. Essa nova ordem interfere diretamente na postura do jornalista, do repórter e da própria objetividade implícita na prática da profissão.

O jornalismo na internet, ou webjornalismo como também é chamado, tem como principal característica a instantaneidade. O ritmo de produção do conteúdo para a rede é diferente de outros meios como o rádio, a televisão e o impresso. Isso por que a publicação de uma notícia na rede acontece geralmente no momento seguinte ao que ela é finalizada. Nos outros veículos é necessário seguir uma grade de programação ou a data da publicação.

Outro fator importante é a possibilidade de alteração nas páginas. Tal fato permite que qualquer notícia receba complementos e ajustes. Isso não acontece nas mídias “concorrentes” à internet. Uma vez que um jornal é publicado ou que um programa de televisão ou rádio vai ao ar, ele só consegue informações adicionais ou correções na próxima edição.

A grande concorrência gerada pelo número de plataformas e também pelo elevado número de empresas de comunicação faz com que a busca pelo “furo” seja ainda mais intensa nesta era tecnológica. Em todas as notícias são colocadas a data e o horário da publicação. A busca desenfreada por ser o primeiro a conseguir “postar” a matéria pode gerar problemas de objetividade e até de qualidade da informação.

No entanto, não há apenas crise com a evolução do jornalismo para o webjornalismo. A rede proporciona também um espaço mais democrático, haja visto que qualquer pessoa pode ter a sua própria página. Existe a possibilidade de um maior número de informações, opiniões e também da interação com o público alvo.

O jornalista velocista

A velocidade do webjornalismo ainda fará um repórter ser mais rápido do que Usain Bolt, campeão olímpico e recordista mundial dos 100m no atletismo. A nova ordem pede urgência nas publicações. O jornalista faz parte deste processo e a busca pelas fontes passou a ser frenética e a produção do conteúdo semelhante ao processo industrial.

Diferentemente do que acontece em um veículo impresso onde há um tempo determinado para a apuração das fontes, na internet a pesquisa das informações acontece mais rapidamente. Por conta disso, o botão F5 do teclado (atualiza a publicação de uma página) é um dos termos capazes de caracterizar a prática jornalística.

“Eu fiquei o dia inteiro apertando F5”, disse o repórter Luís Araújo do canal de basquete do portal iG. “Iria sair no site da Fiba (Federação Internacional de Basquete) a decisão sobre a participação ou não da Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos de Londres. A matéria iria para a capa de esportes e talvez para a “home” do site. Então era preciso ganhar dos outros portais” explicou.

Se antes era comum nas redações das empresas jornalísticas uma pessoa fazendo rádio escuta (jornalista responsável pela apuração de informações de outros meios), hoje é natural que os repórteres trabalhem vasculhando “novidades” em outros sites, inclusive nos concorrentes.

“É bastante comum ver notícias muito parecidas em todos os portais”, disse Bárbara Ariola, repórter do site “Vila Mulher”, site que produz conteúdo feminino para o portal Terra. “O problema é quando alguém simplesmente copia e cola. E isso até acontece quando são notas menores. Nos casos de matérias especiais já é mais complicado”.

Internet como fonte

Mais do que uma fonte de pesquisa, a internet pode produzir algo pelo qual o jornalismo é movido: as aspas. Com apenas alguns cliques, é possível ter acesso a informações de todas as localidades bem como declarações de pessoas que não estão ao alcance das redações.

A falta de fronteiras na rede é capaz de “redimensionar” o mundo. Não é sempre e não são todas as empresas que reúnem a possibilidade de mandar um repórter a campo. Muitas entrevistas são feitas por email uma vez que não é possível agendar encontro entre entrevistador e entrevistado.

“Eu não vou fazer uma matéria falando sobre o Michael Jordan por que eu não tenho o telefone dele?”, disse Luís Araújo, repórter de basquete do portal iG. “O que mais tem relevância no basquete é NBA dos EUA. Muitas notícias giram em torno do que os jogadores falam após as partidas para as televisões, jornais e sites de lá”.

Outro fator importante nessa analise são as agências de notícias e os sites de outros países. Eles conferem ao repórter sem nem sequer sair da cadeira informações, imagens, vídeos, declarações às quais ele não tem como chegar.

É o que acontece com a fotográfa Jéssica Mangaba que trabalha no site da revista Veja: “Meu trabalho é ficar montando e editando as galerias de imagens do site”, afirma ela. “Para conseguir isso eu fico o dia todo procurando fotos em bancos de imagens, agências de notícias”.

É mais fácil errar na internet

Embora seja uma fonte rica em possibilidades, a internet também causar ao webjornalista algumas “pegadinhas”. Há um volume imenso de páginas que abordam os mesmos temas, muitas vezes com enfoques diferentes, opiniões contrárias e até mesmo imprecisão jornalística.

Segundo uma pesquisa feita pelo mestre em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS/RS) Demétrio de Azeredo Soster, “se erra muito no webjornalismo em decorrência do aumento das velocidades de produção”. Após uma pesquisa realizada durante as eleições de 2002, ele constatou 1392 erros em um universo de 468 matérias publicadas pelo portal UOL.

Soster tratou de dividir os erros em dois grandes grupos. No primeiro, Ruídos de Linguagem, ele juntou falhas de ortografia, concordância e gramática, grafia de nomes, digitação, além de repetição e ausência de palavras. Erros de informação, edição, ambiguidade, incoerência entre título e informação e dados incoerentes dentro do próprio texto foram classificados em um segundo grupo, chamado de Imprecisão Jornalística.

Luís Araújo, repórter do canal de basquete no portal iG, cometeu um erro de informação em uma matéria por conta de um problema relacionado à internet. Segundo ele próprio, quando da cobertura de um jogo do Novo Basquete Brasil feita pelo site oficial da competição, o cronômetro zerou com o placar final errado. O resultado foi a publicação de um relato do jogo com o vencedor errado.

A força das Mídias Sociais

A velocidade pela busca do furo jornalístico teve um “upgrade” nos últimos anos. A evolução das mídias sociais fez com que a informação ganhasse ainda mais rapidez para ser passada ao público.

“Muitos dizem que depois do jornalismo online o furo não existe mais. É muito fácil divulgar uma informação imediata e milésimos de segundos depois a concorrente lançar a mesma notícia. Então não podemos dizer quem foi que saiu na frente, etc. Obviamente o twitter e outras redes do tipo são totalmente relevantes ao imediatismo. Elas superam TV, rádio e claro, o jornal”, afirma Bárbara.

Com a liberdade de comunicação interativa, mais a facilidade no uso das ferramentas, as redes sociais podem até ser classificadas como uma das formas mais poderosas de comunicação atualmente. Seu crescimento significativo contribuiu para a interação entre público e jornalistas. Prova disso são os dados do Ibope, afirmando que 80% dos brasileiros que tem acesso a internet participam de alguma rede social.

“Eu ‘furei’ um jornalista norte-americano com o twitter dele”, disse Luís Araújo. “Era um cara que escrevia para um grande portal. Ele confirmou a troca de um jogador na página dele. Usando curta informação que ele deu, fiz a minha matéria. Obviamente, o citei. Mas a notícia saiu antes no nosso canal do que no dele”, conta o repórter.

É comum ver comentários de leitores na parte final das notícias. A interatividade também se faz presente. Enquetes, vídeos feitos pelo próprio público também são canais diretos. No Twitter, o jornalista fala diretamente com seu seguidor.

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Publicado em abril 6, 2011, em Jorn. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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