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Webjornalismo e o novo jornalista

Por João Henrique Olegario, Renato Pires e Raphael Sack

O jornalismo vive um período decisivo em sua história. As mudanças nas noções de tempo, espaço e velocidade trazidas pela internet além do avanço tecnológico e a possibilidade de múltiplas mídias foram capazes de criar uma crise no caminho da atividade. Essa nova ordem interfere diretamente na postura do jornalista, do repórter e da própria objetividade implícita na prática da profissão.

O jornalismo na internet, ou webjornalismo como também é chamado, tem como principal característica a instantaneidade. O ritmo de produção do conteúdo para a rede é diferente de outros meios como o rádio, a televisão e o impresso. Isso por que a publicação de uma notícia na rede acontece geralmente no momento seguinte ao que ela é finalizada. Nos outros veículos é necessário seguir uma grade de programação ou a data da publicação.

Outro fator importante é a possibilidade de alteração nas páginas. Tal fato permite que qualquer notícia receba complementos e ajustes. Isso não acontece nas mídias “concorrentes” à internet. Uma vez que um jornal é publicado ou que um programa de televisão ou rádio vai ao ar, ele só consegue informações adicionais ou correções na próxima edição.

A grande concorrência gerada pelo número de plataformas e também pelo elevado número de empresas de comunicação faz com que a busca pelo “furo” seja ainda mais intensa nesta era tecnológica. Em todas as notícias são colocadas a data e o horário da publicação. A busca desenfreada por ser o primeiro a conseguir “postar” a matéria pode gerar problemas de objetividade e até de qualidade da informação.

No entanto, não há apenas crise com a evolução do jornalismo para o webjornalismo. A rede proporciona também um espaço mais democrático, haja visto que qualquer pessoa pode ter a sua própria página. Existe a possibilidade de um maior número de informações, opiniões e também da interação com o público alvo.

O jornalista velocista

A velocidade do webjornalismo ainda fará um repórter ser mais rápido do que Usain Bolt, campeão olímpico e recordista mundial dos 100m no atletismo. A nova ordem pede urgência nas publicações. O jornalista faz parte deste processo e a busca pelas fontes passou a ser frenética e a produção do conteúdo semelhante ao processo industrial.

Diferentemente do que acontece em um veículo impresso onde há um tempo determinado para a apuração das fontes, na internet a pesquisa das informações acontece mais rapidamente. Por conta disso, o botão F5 do teclado (atualiza a publicação de uma página) é um dos termos capazes de caracterizar a prática jornalística.

“Eu fiquei o dia inteiro apertando F5”, disse o repórter Luís Araújo do canal de basquete do portal iG. “Iria sair no site da Fiba (Federação Internacional de Basquete) a decisão sobre a participação ou não da Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos de Londres. A matéria iria para a capa de esportes e talvez para a “home” do site. Então era preciso ganhar dos outros portais” explicou.

Se antes era comum nas redações das empresas jornalísticas uma pessoa fazendo rádio escuta (jornalista responsável pela apuração de informações de outros meios), hoje é natural que os repórteres trabalhem vasculhando “novidades” em outros sites, inclusive nos concorrentes.

“É bastante comum ver notícias muito parecidas em todos os portais”, disse Bárbara Ariola, repórter do site “Vila Mulher”, site que produz conteúdo feminino para o portal Terra. “O problema é quando alguém simplesmente copia e cola. E isso até acontece quando são notas menores. Nos casos de matérias especiais já é mais complicado”.

Internet como fonte

Mais do que uma fonte de pesquisa, a internet pode produzir algo pelo qual o jornalismo é movido: as aspas. Com apenas alguns cliques, é possível ter acesso a informações de todas as localidades bem como declarações de pessoas que não estão ao alcance das redações.

A falta de fronteiras na rede é capaz de “redimensionar” o mundo. Não é sempre e não são todas as empresas que reúnem a possibilidade de mandar um repórter a campo. Muitas entrevistas são feitas por email uma vez que não é possível agendar encontro entre entrevistador e entrevistado.

“Eu não vou fazer uma matéria falando sobre o Michael Jordan por que eu não tenho o telefone dele?”, disse Luís Araújo, repórter de basquete do portal iG. “O que mais tem relevância no basquete é NBA dos EUA. Muitas notícias giram em torno do que os jogadores falam após as partidas para as televisões, jornais e sites de lá”.

Outro fator importante nessa analise são as agências de notícias e os sites de outros países. Eles conferem ao repórter sem nem sequer sair da cadeira informações, imagens, vídeos, declarações às quais ele não tem como chegar.

É o que acontece com a fotográfa Jéssica Mangaba que trabalha no site da revista Veja: “Meu trabalho é ficar montando e editando as galerias de imagens do site”, afirma ela. “Para conseguir isso eu fico o dia todo procurando fotos em bancos de imagens, agências de notícias”.

É mais fácil errar na internet

Embora seja uma fonte rica em possibilidades, a internet também causar ao webjornalista algumas “pegadinhas”. Há um volume imenso de páginas que abordam os mesmos temas, muitas vezes com enfoques diferentes, opiniões contrárias e até mesmo imprecisão jornalística.

Segundo uma pesquisa feita pelo mestre em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS/RS) Demétrio de Azeredo Soster, “se erra muito no webjornalismo em decorrência do aumento das velocidades de produção”. Após uma pesquisa realizada durante as eleições de 2002, ele constatou 1392 erros em um universo de 468 matérias publicadas pelo portal UOL.

Soster tratou de dividir os erros em dois grandes grupos. No primeiro, Ruídos de Linguagem, ele juntou falhas de ortografia, concordância e gramática, grafia de nomes, digitação, além de repetição e ausência de palavras. Erros de informação, edição, ambiguidade, incoerência entre título e informação e dados incoerentes dentro do próprio texto foram classificados em um segundo grupo, chamado de Imprecisão Jornalística.

Luís Araújo, repórter do canal de basquete no portal iG, cometeu um erro de informação em uma matéria por conta de um problema relacionado à internet. Segundo ele próprio, quando da cobertura de um jogo do Novo Basquete Brasil feita pelo site oficial da competição, o cronômetro zerou com o placar final errado. O resultado foi a publicação de um relato do jogo com o vencedor errado.

A força das Mídias Sociais

A velocidade pela busca do furo jornalístico teve um “upgrade” nos últimos anos. A evolução das mídias sociais fez com que a informação ganhasse ainda mais rapidez para ser passada ao público.

“Muitos dizem que depois do jornalismo online o furo não existe mais. É muito fácil divulgar uma informação imediata e milésimos de segundos depois a concorrente lançar a mesma notícia. Então não podemos dizer quem foi que saiu na frente, etc. Obviamente o twitter e outras redes do tipo são totalmente relevantes ao imediatismo. Elas superam TV, rádio e claro, o jornal”, afirma Bárbara.

Com a liberdade de comunicação interativa, mais a facilidade no uso das ferramentas, as redes sociais podem até ser classificadas como uma das formas mais poderosas de comunicação atualmente. Seu crescimento significativo contribuiu para a interação entre público e jornalistas. Prova disso são os dados do Ibope, afirmando que 80% dos brasileiros que tem acesso a internet participam de alguma rede social.

“Eu ‘furei’ um jornalista norte-americano com o twitter dele”, disse Luís Araújo. “Era um cara que escrevia para um grande portal. Ele confirmou a troca de um jogador na página dele. Usando curta informação que ele deu, fiz a minha matéria. Obviamente, o citei. Mas a notícia saiu antes no nosso canal do que no dele”, conta o repórter.

É comum ver comentários de leitores na parte final das notícias. A interatividade também se faz presente. Enquetes, vídeos feitos pelo próprio público também são canais diretos. No Twitter, o jornalista fala diretamente com seu seguidor.

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Ronaldo é gol

Não é todo dia que se vê um eclipse total da lua. O famoso Cometa Halley era visto a cada 76 anos. Também não há quem consiga explicar ou negar a existência dos extraterrestres. Os Tsnunamis, as chuvas, as queimadas, os furacões vão ser lembrados em todas as retrospectivas de final do ano. No entanto, “Fenômeno” eles não são. Ou pelo menos estão mais afastados do significado desta palavra a partir de agora. Essa ideia, de coisas fenomenais, mudou. Praticamente acabou nesta segunda-feira com o anuncio da aposentadoria do jogador Ronaldo.

Pelé foi o “Rei”. Maradona é o “Diós (D10S)” na Argentina. Leônidas da Silva, primeiro grande craque brasileiro, é lembrado como “Diamante Negro”. Romário foi o “Baixinho”. Garrincha tinha as pernas tortas e Zico era o “Galinho de Quintino”. Michael Jordan foi “Air” e Earvin Johnson dava passes tão geniais que foi apelidado de “Magic” na NBA. O apelido sobrou para Paula, companheira de Hortência, a “Rainha do Basquete”. Na Fórmula 1, Ayrton Senna era “do Brasil” e rivalizou por tanto tempo com o “Professor” Alain Prost.

Ronaldo Luís Nazário de Lima é certamente um integrante dessa classe de atleta especial que marca época. O “Fenômeno”, apelido que recebeu dos jornalistas espanhóis quando de sua passagem pelo Barcelona em 1996, é um jogador único e que não precisa de muitas definições. Basta uma palavra, uma ideia. E ele é o que exatamente aquilo que ele conseguiu construir ao longo de sua carreira: fenomenal!

No entanto, a partir do último dia 14 de fevereiro, Ronaldo entrou para outra classe, a de ex-atletas. Após 18 anos de uma jornada profissional vitoriosa, um dos maiores astros dos últimos 20 anos parou. Parou sob uma chuva de pedras que não eram meteoros de duelos planetários. Parou sob pedradas de vândalos que o culparam por conta de um vexame fenomenal.

A atuação do jogador no revés por 2 a 0 diante do Deportes Tolima, time colombiano que determinou a eliminação do Corinthians da Taça Libertadores da América, não lembrou em nada as arrancadas que marcaram sua carreira. Há muito tempo o Fenômeno não era mais tão rápido como um relâmpago que rasgava o céu. Muito menos tão devastador quanto um vendaval capaz de não deixar nada e nenhum defensor em pé. Ronaldo é gol como diz a música, mas desde 13 de novembro ele não balançava as redes.

A eliminação, as dores em virtude das lesões numerosas e a alegação de hipotireoidismo descoberto há quatro anos quando ainda jogava no Milan pesaram. E Ronaldo, pesado, decidiu que era o momento de antecipar a aposentadoria programada para o final de 2011. A precipitação abordada por todos os canais de televisão e por cerca de 300 profissionais na sala de imprensa do Corinthians com espaço para 150 não era a chuva tradicional em São Paulo. O jogador eleito três vezes melhor do mundo (1996, 1997 e 2002) chorou após ter “abandonar algo que fez com tanto amor por ter chegado ao máximo do sacrifício”.

O anuncio colocou um ponto final na carreira do camisa 9. A trajetória de Ronaldo começou no São Cristóvão do Rio de Janeiro. No entanto, foi no Cruzeiro de Belo Horizonte aos 16 que o jogador conseguiu destaque nacional. A estreia como profissional no time mineiro aconteceu no dia 25 de maio de 1993. A rápida evolução fez o jovem fazer parte do grupo da Seleção Brasileira que conquistou a Copa do Mundo de 1994 disputada nos EUA.

Mesmo sem entrar em campo no mundial norte-americano, Ronaldo começou a desenhar sua trajetória internacional. Por “apenas” US$ 6 milhões, o jogador trocou o Cruzeiro pelo PSV da Holanda. Os 67 gols em 71 jogos nas duas temporadas que fez pelo time holandês fizeram o Barcelona da Espanha abrir os cofres. O time catalão desembolsou US$ 20 milhões para contar com os trabalhos do atacante.

Aos 20 anos, Ronaldo fez na Espanha uma temporada incrível que lhe rendeu o apelido fenomenal. Foi jogando pelo Barcelona que o atacante conseguiu levantar o prêmio de melhor do mundo pela primeira vez. No entanto, o atleta ficou apenas uma temporada no time catalão e após 47 gols em 52 jogos foi para a Itália para jogar pela Internazionale de Milão.

O começo no time italiano foi bom e Ronaldo foi eleito como melhor do mundo pela segunda vez. Contudo, o jogador passou a ter que lidar com problemas. O primeiro deles foi a convulsão momentos antes da final da Copa do Mundo da França em 1998 quando o Brasil foi derrotado pela França por 3 a 0 na final. No ano seguinte o atleta lidou com sua primeira grave lesão. A volta antecipada resultou em uma chocante imagem: em uma arrancada no seu retorno, o tendão patelar do Fenômeno se rompeu completamente e a carreira quase foi abreviada.

Após 15 meses de recuperação, Ronaldo foi convocado por Luís Felipe Scolari para a disputa da Copa do Mundo da Coreia do Sul e do Japão. Os oito gols no torneio, incluindo dois na decisão contra a Alemanha, fizeram o jogador alcançar pela terceira vez o status de melhor do mundo e valeu uma transferência para o Real Madrid.

Novamente na Espanha, Ronaldo fez parte da era “Galáctica” do time madrilenho ao lado de outros astros como Zinedine Zidane e David Beckham. Sucesso de marketing, o jogador viu o número de títulos minguar, as criticas a respeito de seu peso surgirem.

Antes de voltar para a Itália, desta vez para o Milan, Ronaldo fez na vitória do Brasil diante de Gana em 2006 na Alemanha o seu décimo quinto gol em copas do mundo se isolando como o maior artilheiro do evento. O gol também foi o 71º e último em seus 12 anos servindo à Seleção Brasileira.

Dispensado pelo time italiano, Ronaldo voltou ao Brasil e acertou com o Corinthians. No time paulista, o jogador fez os seus últimos 35 gols na carreira. No primeiro semestre de 2009, o fenômeno comandou a campanha vitoriosa da Copa do Brasil e do Campeonato Paulista fazendo gol nas duas decisões.

As lesões e o peso elevado voltaram a assombrar o camisa 9. Fora de campo, o jogador ajudou o Corinthians a obter o quarto maior patrocínio do mundo na camisa. Dentro das quatro linhas os seguidos fracassos foram minando o impacto do Fenômeno. Fora de forma, ele não conseguiu repetir o desempenho de sua chegada no time paulista. Longe de ser uma unanimidade até entre os corintianos, o Fenômeno optou pela aposentadoria, mas revelou que vai seguir próximo ao futebol, especialmente de seu último clube.

Artilheiro, Ronaldo deixou para a história 475 gols nos 576 jogos que fez como profissional.  Além dos três troféus de melhor jogador do planeta e das duas Copas do Mundo, o jogador colecionou 18 títulos (seis deles com a Seleção Brasileira), antes de colocar um ponto final na trajetória fenomenal.

 

Isso ai é rádio

Os “advogados do povo” na televisão

Interação com o público-alvo é o recurso utilizado pelos apresentadores de programas policiais para conseguirem pontos importantes na briga pela audiência

Muito mais do que crimes. É disso que precisam os programas policiais da televisão brasileira. Para conseguir “sucesso” é necessário personificar a produção da comunicação em um “showman” próximo à realidade. Esse tipo de jornalismo, muitas vezes criticado pelo apelo sensacionalista, é construído através de um desenho psicológico de seu apresentador para que seja capaz de atingir os expectadores como alguém que sente os mesmos problemas cotidianos.

Para sobreviverem, os programas policiais mais populares precisam, obviamente, da matéria-prima crime. Sejam violentos ou não, o Brasil apresenta altas taxas. Não por acaso, o país aparece muito distante das primeiras posições em pesquisas dos locais mais pacíficos do mundo.

Isto posto, cria-se um cenário ideal para que os programas policiais consigam espaço midiático. No entanto, não é apenas isso. Os apresentadores são boa parte da explicação para o sucesso de ibope de alguns deles. Os ataques histéricos, os chiliques nervosos tornam-se padrões de personalidade de revolta contra as políticas de segurança pública.

No começo da última década, esse tipo de produção mais popular, por vezes até sensacionalista, além de outros programas também com estilos mais sociais alcançaram outro patamar. Os índices de audiência atingidos por Ratinho, Datena, Marcelo Rezende, entre outros, fizeram com que as grades televisivas permitissem mais espaço para a programação dessa linhagem.

As estrelas desse tipo de show midiático, muitas vezes quase atores humorísticos, fazem o papel estereotipado de defensores públicos. Isso porque mostram diariamente os mais diversos problemas que a sociedade enfrenta. Por conta disso, a infiltração desse tipo de programação é muito maior em áreas com situações mais precárias de segurança, saúde, educação, entre outros.

Para conseguir retorno de audiência, esse tipo de programa se utiliza dos conceitos de Interação Parassocial. Ou seja, é estabelecido um vínculo entre a figura midiática do apresentador e os expectadores. Eles conseguem isso se mantendo como “pessoas reais” que também são afetadas pelos problemas apresentados e pela revolta demonstrada.

Outro recurso importante utilizado por pelos programas policiais é a linguagem. Jargões como “me ajuda aqui”, “aqui tem café no bule” ou “o povo na TV” aproximam ainda mais as pessoas desses apresentadores. Funciona quase como se fosse a voz do expectador. No entanto, esse processo deve ser entendido como proposital por parte das empresas de comunicação.

Também há a possibilidade de interação direta – não apenas virtual pela televisão – com quem vê e acompanha o programa. Isto é fazer com que o público alvo se sinta parte integrante do processo. Unidades móveis, helicópteros tornam visíveis as pessoas que se sentem à margem da sociedade. Aceitar denúncias, entrevistas também entram no processo de “aproximação” desejada pelos meios.

Logo é possível dizer que para um programa jornalístico como são os policiais, não basta apenas a produção de notícias. É necessário um estudo psicológico que seja capaz de otimizar o alcance. E eles são feitos e utilizados por “atores” que passam uma mensagem indireta de proximidade e interação com quem assiste.

A luta obrigatória contra o mundo inteiro

Não é show da Lady Gaga, mas a gritaria é parecida. Não é jogo do Corinthians, mas o espaço é tão reduzido quanto o das arquibancadas do Pacaembu. O calor é tão forte, quase como o de um deserto. A estação de metrô do Anhangabaú é uma arena de luta cotidiana.

É final de tarde no centro caótico de São Paulo. As pessoas se reúnem numa caminhada para a catraca da estação. Chega gente de todo lugar. O terminal bandeira fica ao lado e desembarca um mundo de gente. Do Parque Dom Pedro também surgem centenas, milhares.

Há fila. Interminável, duradoura. Fila para passar pela porta, fila para comprar bilhete, fila para sair da fila. As catracas contam as pessoas que eu já desisti de contar. Então eu vejo mais gente andando uma atrás da outra. Fila para escada rolante, fila na plataforma.

É inverno, mas as pessoas estão molhadas de tanto calor. É o tal do “calor humano” que tanto se diz. É tão quente, que ainda que estivesse nevando lá fora, aqui dentro as pessoas estariam se abanando. Azar daqueles que andam de terno. Sempre afrouxando o nó da gravata. Suor na testa, camisa enxarcada. Quem não carrega o peso do terno, ou leva caixa, mochila, pacote… Tudo aumenta a temperatura.

O bafo é quente. O único vento é o dos vagões passando. E eles passam. Vários. Um, dois, cinco. Quem consegue entrar? E se um passa direto, há revolta.

-Todo santo dia é isso. Esbraveja um dos “sardinhas na lata”.
-Amanhã vai ser igual. Respondo.
-Eu já não aguento mais.

As portas finalmente se abrem. Desta vez, em condições de entrar. A luta diária se faz, de fato. As pessoas se empurram, se espremem. Por vezes brigam. E nem sempre é apenas a luta por um lugar confortável que geralmente não surge.

Do lado de dentro do vagão é até possível cogitar a ideia que na plataforma era muito melhor. Mas a histeria já não existe mais. Agora são os fones de ouvidos. Não é todo mundo que tem e alguns gostam de compartilhar o gosto musical.

A linha é reta. Para casa. São algumas paradas, e alguns dos rivais cotidianos vão ficando pelo caminho. No entanto, a volta e os próximos duelos são certos. Já estão agendados. Serão todos amanhã. Depois também. É o masoquismo necessário do caos absurdo.

Argumento – Comercial Matercard

O Brasil é o país do futebol. E se algum dia os especialistas das palavras cogitarem a ideia de colocar os dois substantivos no dicionário como sinônimos, eles definitivamente não estarão nenhum pouco enganados. O país se explica no esporte mais popular do mundo e o jogo de onze contra onze é capaz de representar a grande maioria da população que luta todo dia contra um rival diferente. Às vezes se perde, as vezes se ganha, mas há sempre um novo desafio a ser superado.

E se Brasil e futebol têm essa ligação tão estreita, o mesmo pode se dizer de Pelé. É. Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. É, apelido. Pelé. Apenas quatro letras. Assim como é Saci, como é Boto, como é Cuca. Quase folclore. Cultura e expressão brasileira. Representação tupiniquim.

Ele é o maior de todos. O atleta do século, o homem que mais marcou gols em todos os tempos. Anotou tentos incríveis, fez jogadas que não vão sair da memória. Ele era tão genial que até quando não conseguiu sua meta fez dos erros momentos tão brilhantes e de brilhantismo tão único, que a bola balança a rede mesmo se vai para fora. Então se Pelé é o rei do futebol, de uma certa forma ele também pode usar uma coroa e se sentir reinando no Brasil.

Isso eu aprendi com meu pai. Um senhor de 60 anos de idade que, assim como boa parte de seus conterrâneos, acompanha futebol de perto. E gosta tanto que também se define através dele. É a diversão cotidiana, é a motivação para as segundas-feiras.

Meu pai viu a história acontecer ao vivo, viu de perto. Viu as primeiras conquistas brasileiras no exterior e viu o complexo de inferioridade tão comum nesta terra desaparecer chutada como uma bola que deve ser afastada. E se a pelota fosse o globo terrestre, certamente teria parado no peito de Pelé. O Brasil é o melhor do mundo. Pelo menos no futebol, ele é. E o maior de todos é brasileiro. É como se o Brasil fosse capaz de colocar para trás todo tipo de subordinação aos parâmetros de mercado e às dominações apenas com a habilidade natural que temos para driblar.

Isso eu aprendi com meu pai. Um senhor de 60 anos que me contou as glórias do país. Um senhor que me contou que Pelé se tornou famoso aos 17 anos. É! Ainda menino ele já era o melhor de todos. E com essa idade ele já fora capaz de colocar o Brasil no topo do mundo, num lugar que jamais havíamos ido. Me contou que o tempo passou, mas não pra ele. Que anos depois, o jogador foi o principal nome de um time que encantou a todos, que marcou época, entrou para a história e nos colocou novamente em outro patamar.

Pelé é tão importante que ir além de Brasil e futebol não é tão fundamental para explicá-lo. Não há outra palavra. Então é melhor que se faça silêncio. Não se precisa de mais nada para defini-lo. Sua imagem fala por si só.

E que ironia essa a do destino. Isso eu também aprendi com meu pai. Ele me ensinou que apenas a imagem é necessária para definir Pelé. Mas é justamente a foto do maior de todos que falta no álbum de figurinhas histórico da Copa de 1970 que meu pai guarda com tanto carinho na estante da sala. Todas as outras já estão lá, devidamente coladas em seus respectivos lugares, menos a do camisa 10 da Seleção Brasileira. Gerson está lá. Rivelino também. Carlos Alberto Torres ainda não tinha a taça nas mãos, mas estava lá. Felix é o único que não está de amarelo. Mas o único espaço incompleto é o de Pelé.

Bom, é época de Copa do Mundo novamente. O povo brasileiro fica oiriçado por esse motivo a cada quatro anos. Um sentimento nacionalista arrebata as pessoas. Empolgados com o evento internacional, todo mundo passa a usar as cores da bandeira. As pessoas pintam as ruas, fazem caricaturas nos muros, cortam sacos plásticos e fazem cortinas. E lá estão diversos “Pelés”. Pintados, sempre vestindo a consagrada camisa 10 amarela. É tempo de Copa do Mundo e eu recebi do meu pai o “vicio” em colecionar figurinhas.

Foi então que eu me deparei com um momento que eu jamais havia sonhado em passar. Pelé é o rei do futebol, mas ele estava ali ao meu alcance. Eu entrei, despretensiosamente, em um restaurante para almoçar e ele estava lá, sentado e conversando com um amigo. Sorriso largo e brilhante. Cativante e simples ao mesmo tempo por que é assim que ele é.

Eu paralisei por um segundo que durou uma eternidade para o meu coração. Eu posso imaginar a minha expressão de surpresa com o que tinha acabado de me acontecer. Era ele mesmo, o rei, em uma mesa comum em um restaurante qualquer. O mesmo que o meu. Não estava comendo, apenas falando com o seu acompanhante.

Eu resolvi ir até ele. Me aproximei da mesa com uma grande ideia na cabeça. Com toda a simplicidade do mundo, Pelé me permitiu sentar ao seu lado. Apontou para a cadeira e pediu que eu me sentasse e contasse sobre minha vontade. Sempre sorrindo, ele me escutou contar sobre as suas histórias contadas pelo meu pai. Ouviu tudo o que ele representa para o senhor que representa tudo para mim. Ouviu e aprovou a minha idéia balançando a cabeça positivamente. Sim, o Pelé disse “sim” ao que eu pedi.

Então eu coloquei minha mochila novamente nas costas e corri. E como corri. Foi muito e muito rápido. Atravessei tantas ruas coloridas em verde e amarelo em tão pouco tempo, que me senti o próprio Pelé deixando seus rivais para trás como ele fazia em época de Copa. Eu corri sem respirar até encontrar uma loja de artigos esportivos.

Lá estava ela. Brilhante como sempre. Tão imponente. Ela é realmente diferente. Carrega uma magia intensa que deve muito ao ilusionismo do mágico que usava a 10. Peguei uma camisa amarela daquelas que lhe vestia tão bem. Aquela mesma que o tornou o maior de todos e que fez o Brasil ser tão conhecido pela sua arte com os pés. Peguei também uma bola, a melhor amiga que ele teve durante a vida. Peguei e paguei rapidamente. Nem vi o preço. Na verdade, um momento desses não tem.

Voltei ao restaurante após correr pelo caminho. Entrei ofegante e Pelé ainda estava lá. Me esperou com toda a humildade de um verdadeiro lord. Eu ofereci o presente que havia conseguido. O rei não hesitou em vestir sua roupa de majestade. Tratou de colocar a camisa amarela e segurar a bola de maneira sorridente. Tudo o que eu precisava era uma foto, e eu havia conseguido realizar meu sonho. Mas, não apenas o meu.

Eu já tinha outra corrida para completar. Voltei para casa, com o maior sorriso do mundo e com um envelope na mão. Um envelope como são os de figurinhas de álbum de Copa do Mundo. O sinal da campainha era o que eu queria ouvir. Atrás da porta estava meu pai que me recebeu com um abraço afetuoso, como sempre. Sem suspense lhe estendi a mão e entreguei o presente.

Meu pai tirou os óculos do bolso, colocou-os nos olhos e abriu o envelope. Sorriu com a surpresa. O pacotinho premiado demorou 40 anos para sair. Mas a figurinha do maior de todos finalmente estava ali, nas mãos dele. E passou da ponta de seus dedos para o espaço vazio em seu álbum guardado com tanto carinho.

Agora não faltava mais nada. Eu dei para o meu pais o sonho dele de presente. E ganhei um abraço paterno com todo carinho do mundo. Isso tem preço? Não, não tem preço!

Fura-Fila é a solução na vila Prudente

05/03/2010

Transporte

Linha expressa leva pessoas ao centro de São Paulo em quinze minutos

Pouco divulgado e, por conseqüência, pouco conhecido pela população o Expresso Tiradentes, ou “Fura-Fila” como é chamado pelas pessoas, é uma das boas opções para quem necessita do transporte público diariamente. O projeto desenvolvido pelo ex-prefeito da cidade de São Paulo, Celso Pitta, quase virou piada mas hoje atende algo em torno de dez mil pessoas por dia na linha Terminal Vila Prudente – Terminal Mercado.

O Fura-Fila funciona como um metrô. É uma via exclusiva para os ônibus híbridos e articulados que liga estações e não os pontos de ônibus tradicionais. Embora nas estações existam pontos para ultrapassagem, isso praticamente não ocorre e os veículos andam em fila com bastante espaço para trafegar. Nas estações há controle operacional e de intervalo, bilheterias e áreas de embarque.

A linha Terminal Vila Prudente – Terminal Mercado atende uma distancia de 7,4 quilômetros entre a Vila Prudente e o Mercado Municipal, com uma parada na estação Pq Dom Pedro II do metrô. São cinco estações percorridas em um intervalo médio de, aproximadamente, 15 minutos.

A grande vantagem do Expresso Tiradentes é o número de ônibus circulando. São dez carros na linha que ainda contam com mais três de apoio. Segundo o secretário responsável pelo Terminal Vila Prudente, Carlos Oliveira, o tempo oficial de intervalo entre um ônibus e outro é de quatro minutos. Para o aposentado Paulo Henrique dos Santos o serviço “é bom pois sempre que se chega aqui (Terminal Vila Prudente) há um ônibus esperando.

No entanto nem tudo funciona plenamente na linha e há um trecho critico no sentido Vila Prudente. Para retornar ao terminal, o carro sai da via expressa após a estação do Ipiranga e precisa passar pela movimentada Avenida Ibitirama. Em dias chuvosos ou com algum acidente na região o tempo de espera aumenta consideravelmente e as filas ficam enormes. Para o estudante Marcelo Dias “este é o único problema” da linha.

Em breve, a linha de trem que liga a Vila Prudente ao centro receberá uma imensa ajuda. A região ganhará uma estação do metrô ainda no primeiro semestre de 2010. A estação Vila Prudente fará parte da linha verde que hoje liga o Sacomã à Vila Madalena, passando pela Avenida Paulista.

Lixo eletrônico é novo mal do mundo

25/03/2010

A não reciclagem de materiais desse tipo pode até causar câncer

Lixo high-tech. É assim que são chamadas as pilhas de celulares e resíduos de computadores que não funcionam mais. A questão já se tornou um problema ambiental capaz de demandar legislações especificas. Há uma preocupação com o destino desses resíduos. Se eles são ou não descartados de modo adequado.

A tecnologia facilita a vida. No entanto o vicio criado pelo útil pode acarretar problemas inclusive à saúde. Este tipo de lixo libera substancias como mercúrio e chumbo. A exposição em excesso a esses agentes pode causar doenças neurológicas e câncer, segundo Luis Augusto Bianchi, médico e professor da faculdade de medicina da Unesp de Botucatu.

Há, em São Paulo, um centro de reciclagem de lixo eletrônico. Ele garante que boa parte do material descartado seja reaproveitada. De quebra, o centro ainda impede que muitas peças que ainda possam ser utilizadas abasteçam o mercado paralelo.

No entanto, por falta de conhecimento ou por preguiça, as pessoas seguem empilhando lixo eletrônico. À medida que os anos passam e essas pilhas aumentam, percebe-se que o meio tem sido colocado em segundo plano pela própria sociedade.

Lançamento do metrô Vila Prudente pode atrasar

17/05/2010

Segunda previsão de inauguração pode ser adiada para a segundo semestre

Esperar um pouco mais. É isso que terão que fazer os cidadãos que aguardam a inauguração do metrô na Vila Prudente. A entrega da nova estação ainda não tem data definida. A previsão é que ela esteja pronta ainda no primeiro semestre. Entretanto, o metrô não assegura que o prazo estipulado será cumprido.

Mais de 400 mil pessoas aguardam pela abertura das novas estações da linha verde do metrô. Essa é a estimativa feita pela companhia de transporte coletivo. Após o lançamento das estações Vila Prudente e Tamanduateí, a expectativa é que o fluxo na linha verde dobre o valor em relação ao atual. O metrô atende 425 mil pessoas diariamente entre as estações Sacomã e Vila Madalena, passando pela Avenida Paulista. Após a inauguração das duas estações o metrô estima que o fluxo na linha supere a casa de 830 mil pessoas por dia.

A expectativa do Metrô é de que as novas estações estejam prontas ainda no primeiro semestre de 2010. No entanto, esse não é o primeiro prazo estipulado. A ideia inicial apontava para o lançamento ainda no primeiro trimestre deste ano. O metrô, através de seu departamento de marketing corporativo, explica que “os prazos não são rígidos uma vez que fatores externos influenciam no cumprimento preciso do cronograma.” Esses fatores podem adiar a entrega das estações à população para o segundo semestre.

“A entrega das estações do Metrô de São Paulo depende da conclusão bem sucedida de uma série de testes”, afirma Aluizio Gibson, gerente de comunicação e marketing da companhia metropolitana. “Estes testes são exaustivos e devem atender uma série de protocolos. Apenas quando os padrões de eficiência e segurança do metrô forem atingidos é que as estações serão entregues.”

A estação Vila Prudente do metrô fará a ligação com o monotrilho. O novo sistema de transporte coletivo irá ligar a região da Vila Prudente com a Cidade Tiradentes, no extremo leste da capital. “Isso somado a construção da futura linha branca que ligará a região à Tiquatira, fará da estação Vila Prudente a maior intermodal da Zona Leste.” explica Gibson.

Embora a melhora no transporte seja evidente, a população ainda não sente os possíveis efeitos. “Eu sei que vai melhorar, mas a estação não fica pronta nunca”, é o que afirma o estudante Glauber Eduardo. “Parece que a obra emperrou. Colocaram a placa do metrô na rua e desde então não vi mais mudanças. Eu irei economizar tempo, mas por enquanto estão gastando meu dinheiro.”

Segundo o departamento de marketing corporativo do metrô o orçamento do trecho entre Alto do Ipiranga até a Vila Prudente está em torno de R$ 2,3 bilhões.